Estávamos esperando há meia hora e eis que a garoa começa com um vento gelado e cortante. Minha atenção voa para o outro lado da rua e meus olhos se prendem no sujeito: mesma altura, cabelo parecido, de costas. Aperto a boca; meu coração perdeu o compasso. Será? É noite, olho para a luz do poste para checar a intensidade da chuva: aumentou. Será? Impossível. Será? Sempre me arrependo dos "será's" ignorados, sei o que fazer. Me abraço com esse casaquinho vermelho que não aquece nada e atravesso a rua correndo. É, a chuva realmente aumentou! Frio estúpido. Chego perto, devagar. Cinco ou quatro metros. Não é. Sabia! O que ele estaria fazendo por aqui? Dou um sorriso de canto de boca para o nada, meio de decepção, meio de alívio. O martelar se acalma. Quase consigo vê-lo nesse menino, de costas. Quase uma miragem, assombração.
Não, eu não tenho nenhuma explicação nem justificativa para isso. Vai entender.
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